No Brasil, 132 mil infartos são causados
pelo estresse do dia a dia!
Dores, com difícil diagnóstico, podem sinalizar o estresse.
Atividades físicas ajudam fortalecer a saúde e combater
a pressão.
Será
que existe um jeito de fugir do estresse? O aposentado Bruno Barabani,
de 78 anos, diz que aprendeu e dá um exemplo. Conta o que faz
quando, por engano, fecha outro carro no trânsito complicado de
São Paulo: “eu espero o cara passar do meu lado. Ele vai
me xingar e eu digo: ‘sabe de uma coisa? Você tem toda razão’.
Pronto, o cara dá um sorriso e fica tudo bem”.
Manter a cabeça fria. É cada vez mais complicado. E cada
vez mais a ciência confirma: o estresse é uma fonte interminável
de doenças. Se fosse possível acabar com as preocupações
do dia a dia, 132 mil infartos poderiam ser evitados por ano no Brasil.
É um terço do total de 400 mil infartos que acontecem
todos os anos no país.
“Estresse e depressão, que nós falamos fatores psicossociais,
estiveram associados com infarto agudo do miocárdio, do ponto
de vista de importância, acima de fatores chamados convencionais,
como diabetes e pressão alta”, explica Álvaro Avezum,
cardiologista da Sociedade de Cardiologia de São Paulo.
E não é só o coração que sofre. Os
músculos do corpo ficam tensos. No começo pode ser uma
dorzinha chata, no pescoço. Logo depois parece que o ombro vai
ficando travado. Tudo isso, com o passar do tempo, só vai aumentando,
piorando. A pressão é enorme. Você parece que está
sendo engolido por sensações muito desagradáveis.
Irritação, depressão, cansaço, uma dificuldade
de fazer qualquer tarefa. Uma enorme confusão. E você não
sabe por onde sair.
Quando a costureira Vânia Diniz chegou ao instituto de ortopedia
do Hospital das Clinicas de São Paulo, ela já não
sabia mais o que fazer. Há seis anos, sofria de uma ardência,
uma dor forte no abdômen. Ela fez vários exames e a dor
continuava.
O diagnóstico surpreendeu. Ela estava estressada. Corria para
cumprir os prazos de entrega da confecção que mantém
com o marido. O estresse tinha virado dor. Mas o que surpreendeu mais
ainda foi o tratamento. Em vez de paciente, ela virou aluna de educação
física. Ela estava descrente de que os exercícios pudessem
fazer efeito, mas decidiu seguir em frente.
Nem mesmo Alexandre Menegaz, professor de educação física
do Hospital das Clínicas de São Paulo sabia da desconfiança
dela. Alexandre explica que a confiança é fundamental
para que as pessoas percam o medo da dor. Os exercícios liberam
um hormônio chamado dopamina, que traz alívio e sensação
de bem-estar.
Atualmente, ela dá sempre um jeito de parar um pouco o trabalho
para fazer os exercícios que foram receitados. A acupuntura no
abdômen completa o tratamento. “Faz quase dois meses que
eu não tenho mais dor. É inacreditável”,
conta Vânia.
“A motivação tem que sair de dentro, daquilo que
eu sinto que posso mudar. Tentar lembrar das pequenas coisas que te
fazem bem e guardar elas dentro e dar uma importância e uma intensidade
maior para elas. Nossa tendência é dar uma intensidade
enorme para o problema e olhar muito pouco para o que a gente tem de
prazer ou de bom na nossa vida”, revela Adriana Loducca, psicóloga
do HC/USP
Bruno conta que demorou a se dar conta disso. Só foi aprender
a viver mais tranquilo aos 75 anos. “Eu aprendi a viver de uns
três anos para cá. Eu ouvia dizer ‘a felicidade está
nas pequenas coisas’. Entrava por um ouvido e saía pelo
outro. Precisou passar por um monte de coisas para eu saber o valor
destas palavras.”
E quanta coisa ele passou. Adolescente, ele era alto e magro. Motivo
de piada no bairro. Para vencer o complexo, reagiu. Estressou e muito
os músculos. Um estresse positivo: virou um campeão, levantador
de peso. Com cinco olimpíadas no currículo. Hoje, quase
aos 80, está treinando arco e flecha.
Mas achou que a concentração já não era
mais a mesma. “No arco e flecha que você precisa desligar
de tudo, se você estiver desligado em alguma coisa não
adianta que você vai errar todas as suas chances que você
for dar. Tem que estar sereno, tem que estar zen.”
Para conseguir mais concentração, Bruno decidiu participar
de uma pesquisa na Universidade Federal de São Paulo. Ficou interessado
numa terapia japonesa, o reiki, que os pesquisadores iriam usar para
o controle de estresse de idosos.
“A grande questão é que o estresse negativo, aquele
estresse que prejudica as funções do corpo e da mente,
muitas vezes pode ser um mal silencioso, pode não ser percebido
pela pessoa portadora do estresse. Mas Bruno procurou tratamento, fez
uma avaliação e passou por um clínico, um psiquiatra.
Depois ele passou a primeira vez pela máquina. E nós detectamos
que, apesar dele não perceber, tinha um nível de estresse
que poderia estar prejudicando algumas funções da vida
dele”, diz Ricardo Monezi, pesquisador da UNIFESP.
A avaliação é feita em um equipamento que mede
o estresse. A temperatura, e as atividades elétrica e muscular
do corpo são monitoradas.
A técnica de relaxamento é simples. A terapeuta põe
as mãos sobre o paciente: testa, peito e em várias partes
do corpo.
“Uma das hipóteses que nós trabalhamos é
a presença da pessoa do terapeuta e principalmente a eficácia
do toque. Como um fator de humanidade, um fator que traz conforto, alguma
coisa que traga bem-estar”, avalia Ricardo.
O cardiologista Álvaro Avezum explica que o modo como enfrentamos
os problemas é decisivo para o desenvolvimento ou não
de doenças.
“Quando discutimos a questão do sentimento, em geral tem
sentimentos que, reconhecidamente, eles são nocivos para o nosso
equilibrio. Exemplo: raiva, revolta, rebeldia, remorso. A solidão,
para alguns pesa. Então é como a pessoa vivencia a situação
estressora é que é o determinante do impacto negativo
do estresse”, afirma o cardiologista.
É o que dizem dez entre dez especialistas, pode não ser
fácil mas é preciso relaxar....